terça-feira, 4 de novembro de 2008

Resumo:

ATRAVESSIA DO RIO PARAOPEBA POR UM CARRO DE BOIS CHEIO DOS PRODUTOS DA LAVOURA. UM RIO VERMELHO DE ÁGUAS BARRENTAS PROVOCADO PELA DEGRADAÇÃO AMBIENTAL ATIVADA PELO HOMEM E, PRINCIPALMENTE, PELAS TRANSNACIONAIS - AS MINERADORES! - QUE EXTRAEM RECURSOS MINERAIS NA REGIÃO DO CHAMADO QUADRILÁTERO FERRÍFERO. NAS ÁGUAS DO PARAOPEBA ZÉ DO BUTECO

O carro de bois, vazio nesse instante, vai atravessar o Rio Paraopeba de águas turvas. Acima das cabeças, as folhas e galhos das árvores ciliares. A sombra salutar. Zé do Buteco abaixa a sua cabeça, arrumando seu velho boné de soldado do Exército. Abana a mão dando sinais aos seus companheiros em procura do melhor trajeto, e na outra mão segura firme sua vara de ferrão.
Ele gosta de tudo de primeira. Espetacular esteira nova e firme nas bem traçadas taquaras. Bons lisos fueiros. Canzis feitos com o melhor pau do cerrado! Os couros, utilizados para fazer os azoios e o tamoeiro, que foram trocados; agora novinhos, e não aqueles puídos pelo tempo. Bois babando no barulho. Muitos deles com chifres, esses bem limados, com argolas. Os nomes foram escolhidos e dados por ele mesmo, Zé do Buteco. Ele elogia, com verossimilhança, que seus bois são os melhores daquelas redondezas e o carro de bois uma beleza só!

Seu Esteves viaja longe à cata de bois iguais para compor o carro, de norma que os bois pareados em junta, obedecendo às cores. E outros carreiros, invejosos ou não, ineptos sim, dizem que atravessar o milho todo naquele rio num carro de bois... somente ele mesmo!... Ninguém é, a não ser Zé do Buteco, capaz dessa façanha.

São quatro juntas, escolhidas a dedo: Rio Grande & Rio Novo, mansos, mesmo assim amarrados com o azoio, ou soga, em suas argolas nos chifres, muito bons de canga e de comando e obedientes na direção vão na dianteira e à frente deles o guia. Este sabe bem que não corre risco de ser ofendido de chifradas; Laranjo & Sereno: são mansos e ladinos em estradas acidentadas ou escorregadias; Chorão & Chumbado: bois mouros e fortes. O Chorão é metido a distribuir chifradas, o batedor, também nos olhos seus sempre escorrendo lágrimas, e Chumbado, boi pesado e lento, vão no meio das juntas; Charango & Mourão: bois de imensa força e espertos – Mourão vale por muitos outros bois juntos –, vão no pé-de-guia. Os bois sem argolas nos chifres são colocados entre as juntas e sem os azoios; livres, sem muita obediência, podem bater em outros bois, obtendo mais saídez e adiantamento no trabalho.

Na barranca do rio o carro de bois desce sem maiores problemas, na praia enormes sulcos de pés de bois e das rodas de madeira e ferro. Nesse ínterim, Zé do Buteco solta um grito, ao qual até mesmo os bois obedecem, e o porquê do alarde: sem razão aparente alguma – desnecessário. Ali perto, nas casas da linha ferroviária, moram mulheres maravilhosas... – “Só mesmo querendo aparecer...eta ferro...”

Na estrada, vencida, o carro de bois vai buscando a beira do rio, aquele lugar que se trafega na fresca da sombra das árvores. O néctar das flores destas, misturado pela ação da poeira levantada, espalha no ar um perfume sublime, naquela manhã de recém-nascido sol. As abelhas, tantas, voam zunindo sobre a poeira e os meninos atentos ao carro de bois, alguns trepam na mesa do carro se apoiando nos fueiros, e outros correm querendo pegar xepa, e uma vez conseguido o apoio necessário das mãos firmes, se encostam na esteira nova de cheiro bom. E eles se deixam cair na estrada só mesmo para depois fazerem o mesmo. O rodízio se fecha com os meninos ágeis aperfeiçoando como pegar carro de bois andando. E assim seguem em direção ao eito.

Zé do Buteco de pose estudada, ereto, no cabeçalho, de propósito, conduz o carro e o faz seguir ligeiro e em seguida quase parando-o. Ele primeiro repara e depois acena para Gugulim com um sorriso largo, de olho em todos. O canto do carro é produzido e também premeditado, quando o tio, além de apertar o cocão, lambuza a chumaceira onde move o eixo da roda de madeira cravada de ferro, com trampa de boi fresca, utilizando as próprias mãos pois não há o chumaço, porque acabou o óleo de mamona. Por acaso evita que o carro de bois pegue fogo. Qualquer malfeito é o bastante, pra Zé do Buteco soltar um grito: “excumungado!” E o carro de bois canta, mesmo sem sinal de peso, porque ele apeou e deu volta e aproximou da roda e apertou bem mais o cocão, apertando ainda mais as cunhas, só mesmo de mamparra e sinagoga, colocando nos mancais pedaços de carvão tirados do fogão de cozinha. Assim é o canto desafinado que se pode ouvir de muito longe. Seu Esteves nota muito bem essas peripécias e não deixa de ralhar na janela do seu quarto, mas já está longe aquele canto, deixando para trás a fazenda. Assim na formalidade, às vezes quebrada, o carro segue indo à roça para trazer os frutos da lavoura. Mas antes deve atravessar o rio.

Na margem deste Zé do Buteco o observa mirando sua calha, e com voz grossa, mas tranqüila, avisa aos meninos que o rio, hoje, está acima do nível e, portanto, muito perigoso para os pequenos. Melhor não irem, diz a eles para não entrar dentro d’água, ele acredita piamente nisso e que ninguém irá desobedecê-lo. Como carreiro Zé do Buteco saiu do comando e caminha rumo à praia acima indo em direção a uma moita. De lá saiu somente de samba canção e, agora, como guiador dos bois, dentro d’água, tomando posse de uma vara de ferrão maior. Mergulhou-se, então, nas águas cor de ferro. Nadando e guiando bravamente as juntas de bois. A força da corrente d’água, adquirida pelo seu volume, traçava um itinerário diferente. A impressão que se tinha era que o carro e os bois, tudo iria a qualquer momento virar a favor da fúria da corrente fluvial. O carro leve em ziguezague quase foi arrastado. Os bois firmes nadando, mostrando suas cabeças e o carro de bois meio flutuando, de mostra só sua esteira, mas controlado pelo guia que, nadando, realiza trabalho perfeito. E em cima do carro os empregados, seguros, sem brincadeiras, sérios, mantinham o equilíbrio do carro, pulando de um lado para o outro, na tentativa de manter o traçado normal da travessia, sem que o carro com os bois virassem. Mesmo saindo da trajetória, o carro deveria chegar no porto, de pedras firmes, do Outro-Lado-do-Rio.

Zé do Buteco sabe muito bem que atravessar o rio com o carro de bois leve é mais difícil que ele totalmente pesado, porque pesado o carro tem atrito poderoso no chão das águas. Porque a própria tração da força exercida pelos bois em equilíbrio com a força da correnteza, irada, faz com que o carro só então siga o caminho certo. Assim os bois não podem deixar de nadar; em nenhum momento, e mostram só suas cabeças, até alcançarem a margem. Zé do Buteco lança fortes braçadas na correnteza e sobe no carro, manobrando e gritando sem trégua, entusiasmando os bois para chegarem ao fim! Tudo isto sendo observado pelos irmãos Mmamaú, Gugulim, Pilão e Meleão na praia do rio. Sendo que o segundo, com muito medo, no fundo torcia para que nada pudesse acontecer, alguma coisa de ruim com o carro de bois e, obviamente, com as pessoas. Ele admira o seu tio padrinho, o mais valente de todos.

Enquanto o carro de bois não volta cheio de milho, eles ficam brincando na praia, fazendo hora, escolhendo a pedrinhas redondas para depois atirá-las na superfície d’água praticando patins, em disputa: – Fiz um, fiz dois, fiz três, fiz quatro... Só?!

Nesse tempo do Outro-Lado-do-Rio, o carro de bois de volta, apontando logo depois das árvores; primeiro, ao longe, no invisível, já se ouve o seu canto pesado, estridente. Zé do Buteco agora afrouxou bastante o cocão, que gira em torno do eixo. Ele, nesse instante, a nado, habilmente reatravessando o rio, cumpre sua tarefa de transportar o milho na época propícia. Logo depois está em cima do carro caminha além do cabeçalho, atrás todo o volume da carga protegida com a esteira, no meio dos bois e quase atinge a chavelha com seus pés.

Mas primeiro Zé do Buteco, no porto do Paraopeba, feito por ele mesmo, prepara as três juntas de bois, tirando-as do cambão, das fortes correntes, para segurar a carga do carro que é a de milho. Cheio. Deixando na frente do carro apenas a junta do pé-de-guia: Charango & Mourão, estes fortes, e as três outras foram levadas para trás, na traseira engatadas na argola da corda que é de ferro situada abaixo da mesa do carro de bois, onde engata o gancho da corrente e esta no gancho da abraçadeira da canga dos bois do pé-de-guia. A bem dizer a argola da corda engatada na corrente serve normalmente para puxar troncos e madeiras. De modo que Zé do Buteco guia, as três juntas de bois atrás do carro, devagar, com muito cuidado e em segurança atingir a margem do rio. Sem esse procedimento o carro de bois corre sério risco de prejuízos de perder toda a mercadoria e até as vidas. Ele pesado, desse jeito, tem de ser segurado por essas juntas de bois por atrás. Em caso contrário, nesse declive acentuado do porto, as rodas do carro e os bois escorregam jogando tudo quanto há dentro d’água.

Quando atinge o rio, o carro já no raso, com a junta de bois Charango & Mourão na frente e as outras três juntas atrás do carro, é preciso refazer o normal do carro de bois. Na calha do rio Zé do Buteco, então, conduz as três juntas de volta à frente do carro, encamboando-as, sem muita dificuldade, já com o seu corpo todo molhado de novo. Finalmente essas juntas ligadas a junta do pé-de-guia, esta continua firme no tamoeiro – correias de couro que engatam na canga dos bois, sendo a primeira junta que é ligada pelo cambão – que são as fortes correntes –, a outras juntas e assim por diante, voltando o carro a ser como era desde o início. As juntas de bois que estavam atrás agora estão na frente enfrentando águas. Mas ele, Zé do Buteco, tem ajuda de guias de fato que estão dando ação: Isidoro, Leco, Mirolando, Luiz e outros carregadores de balaios. No caminho de volta, já na estrada, abaixo da linha de ferro, o eixo do carro de bois aos poucos vai esquentando. Basta secar um pouco e o canto agudo, mascado, torna-se grave até atingir o seu canto estridente, original. As mulheres da cozinha quando ouvem de longe o canto de agudo pra grave do carro de bois, canto arrastado, se apressam no avanço das panelas no fogão de lenha.

Seu Esteves, da janela de seu quarto, ruborizado e esbraveja, não acredita, enche os meninos com suas palavras iradas, ao avistá-los deitados sobre as espigas de milho, ainda molhadas, refletidas pelos raios do sol. Já é quase hora do almoço. Assim o carro de bois entra pelo curral da fazenda e esbarrara de cantar de vez. A porteira bateu... O milho secando... E o movimento dos homens.
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TRECHO DO LIVRO: UM CARRO DE BOIS QUE TRANSPORTAVA LOGOS, EDIÇÃO DO AUTOR, P. 67. 2004 - BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS.

UM PAPAGAIO PALIMPSÉSTICO

(Menção Honrosa no Concurso de Contos promovido pela Editora carioca Guemanisse)

Naquele dia – na beira da tarde –, logo acima do curral oval de poucas gramas, estavam sentados Pedro pai e os meninos da fazenda. Todos sentados na parte de capim menos castigado pelo gado. O tempo caótico naquelas paragens... O vento – forte e frio – expulsava as nuvens nefastas, armadas longe. No vale as nuvens aglomeram e às vezes com trovões pequenos. Portanto, há qualquer momento poderia chover – é o fim da colheita das grandes plantações de milho e feijão na Soparimba.

Pedro pai manipula um saco plástico de adubo e, com suas mãos ásperas, dá retoques simétricos no quadrado de plástico. Para isso usa uma velha tesoura de ferro de tosar as crinas dos cavalos; tem válida serventia. Nesse saco plástico, reciclável, as palavras grafadas em letras grandes se encontram danificadas e até apagadas.

Ao lado daquele cocho, na grama, em repouso há três gravetos medidos de alecrim coletados no cerrado, horas atrás. Além disso, jogados no chão, um facão e uma foice mal amolados. Nesse chão, Pedro pai estendeu o saco tosco, bem aberto e desamassado, que permaneceu ali na espera sobre a areia misturada com o barro de estrume de gado seco. Pedro pai contém um riso enigmático nos lábios, experimenta os gravetos, alisa e morga-os. Repara bem. O experimento pode resultar, no final, em logro para os meninos de olhos espertos e ansiosos. Os gravetos, em forma de cruz, são amarrados com pedaços de embira.

– Pedro pai, quando ocê rasga a embira com as mãos embebidas de restos de água, ela traz cheiro tão bom!

O graveto mais comprido, quando é alisado a canivetadas, morgado no amarro, forma em equilíbrio uma meia-lua. Logo após essa envergadura, também amarrado nas partes superiores dos dois gravetos – em forma de cruz –, o esqueleto da estrutura é testado contra o vento várias vezes seguidas.

Sobre o saco plástico, a armação estruturada de forma aerodinâmica teve o amarramento ordenado – bem posto e caprichado. Tem de fazer, então que faça com calma, é fato indubitável!
Pedro pai perscruta o tempo, pois o seu maior desafio está prestes a acontecer e tem que contar com a sorte e com o tempo. Verifica e aperta bem as amarrações do seu empreendimento. A rabiola, por fim, os meninos a fazem utilizando um bom barbante grosso e restos de outro saco plástico. Mas quando Pedro pai testa o seu protótipo imenso – capaz de assustar qualquer transeunte –, levantando-o contra o vento, percebe o estorvo e solta vitupérios, descartando de imediato a rabiola que rabeava – puxando de lado –, o que deixou os meninos boquiabertos e queixosos...

– Vumpt, vumpt... é o vento forte contra o enorme papagaio de Pedro pai.
Nessa perspectiva, os meninos correm a conduzir, a uma certa distância, o papagaio, levantando-o até quanto pudessem. No vento muito forte o papagaio foi solto, rompendo os bambuzais... alçando vôo... decolando... enfim. Na verdade, bastou largá-lo e o tempo se encarregou, num instantâneo, de realizar o resto. Parecia mais que nem um passarinho; Pedro pai realçou isso em seu rosto, na hora.

Aquele papagaio imenso, que foi motivo de tanta burlescaria, agora estava nos céus da Soparimba. As escritas no plástico, ainda nas alturas, se deixam vislumbrar ora sim, ora não. A manivela com a linha de nylon adquire um peso dantesco e, aos poucos, Pedro pai libera mais e mais linha. O vento cada vez mais forte sopra no vale da solidão. O céu está carregado de uma cor turva que vai se acumulando – concentrando no vale.

O peso aumenta ainda mais quando os meninos acrescentam na linha pedaços de papéis com diversificadas palavras. Palavras escritas com carvão. As letras foram rasuradas quando corrigidas umas sobre as outras, assim rapidamente, quando Pedro pai reescreve uma palavra em cima da outra. Logo as palavras, amarradas na linha de nylon, atravessam as cercas do curral, as formas das árvores, e passam por cima da grande casa da fazenda, se elevam nas alturas: tudo aquilo se tornou muito garrido. Pedro pai manda os meninos enviar mensagens para o mundo de lá.

Paz, amor, alegria, “armonia”, abundância, “cassa”, roupa, perseverança, casa, “lápisc”... Seguem para o céu em meio às trovoadas.

A linha é liberada totalmente da manivela e Pedro pai não suporta tanta batalha pesada. Luta contra o tempo. Vêm os primeiros pingos da chuva, e ele, sapeca, corta com o seu canivete a linha sem que os meninos saibam. Deu a impressão de que a linha tivesse arrebentado por si mesma. Mesmo porque, àquelas alturas, o homem, resignado, não tinha como lutar mais contra a natureza.

O papagaio ainda fora visto, nas alturas, pela ultima vez sendo arrastado pelo vento forte nas nuvens agitadas. Os meninos, com suas cabeças erguidas para o céu puderam ouvir ainda as palavras de Pedro pai, indo na direção do paiol, enquanto eles fugiam para dentro da casa:
– Eu é que nunca vou sair da Soparimba!
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